Pequenos divertimentos cotidianos da vida de uma pessoa sarcástica

Baseado em fatos reais

O ser humano é essencialmente bom. Ele é naturalmente sociável, gosta de interagir e tem uma tendência curiosa a aceitar como verdade tudo aquilo que outro ser humano lhe disser com a firmeza necessária. E é aí que a essa história começa.

Já convivi comigo mesmo tempo suficente pra entender que eu não sou parte dessa grande maioria de seres humanos essencialmente bons, sociáveis, que gostam de interagir. Eu sou um pouco mais maldoso (não mau, maldoso). E com o tempo descobri que se você conseguir falar com a firmeza necessária (e conseguir segurar o riso), as pessoas tendem a acreditar em qualquer coisa que você disser. Já convenci um garoto que meu irmão não tinha ido à aula porque tinha fugido de casa. Já convenci uma “pessoa aqui da firma” que um fornecedor conseguiria entregar a mercadoria no prazo porque ia usar a nova locomotiva a vapor SP-BH. Já convenci um amigo que o Elevado Castelo Branco tem esse nome porque foi construído na época que Castelo Branco era prefeito de Belo Horizonte. Por algum motivo as pessoas acreditam nessas coisas. É só ser enfático, não rir, ficar um pouco sem paciência e citar exemplos e dados tirados do suvaco.

Hoje tive outra experiência dessas passeando com meu cachorro. Ele é um cão de grande porte, de um ano de idade, que não passeava há algum tempo, por não estar com as vacinas em dia. Dá pra imaginar a agitação do bicho na rua, latindo pra tudo e todos. Eis que enquanto eu tento catar o cocô dele, me passa uma senhora e para a uns dois metros do cachorro. Ele começa a latir tenta avançar freneticamente na cidadã, enquanto a sem noção tenta brincar com ele. Eu começo a ficar mau humorado com a inconveniência da senhora, e o seguinte diálogo acontece:

A velha: “- Que cachorro lindo!”

Eu (esboçando um sorriso): “- Obrigado…”

“- Qual o nome dele?” Ela pergunta. “- Sirius”, eu respondo, com os braços cansados de segurar o filhote de mamute.

“- Quantos anos ele tem?”

“- Um.”

“- Nossa! Que enorme ele vai ficar!”

“- Pois é…” (nessa hora eu estava cogitando soltar a coleira).

“- Qual a raça?”

“- Labrador…”

” – Ah! Não é não… labrador não é agressivo assim não!”, observa.

“- É que a mãe dele era um lobo guará.”, retruco.

“- Ah, tá explicado! Tem que colocar aquilo que prende na boca dele então…”

Ela acreditou. A velha realmente acreditou que o cachorro era filho de um lobo guará porque eu falei isso sério. Deus abençoe os seres humanos essencialmente bons, que trazem a alegria para este mundo.

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Viva o trote do direito

Uma curtinha:

Essa semana acompanhamos na internet cenas lamentáveis, asquerosas, inconcebíveis e injustificáveis ocorridas durante um dos eventos que marcam o início da vida dos jovens no curso superior. Situações que, por mais que sejam discutidas ou justificadas, simplesmente não deveriam ter ocorrido. Situações que mostram que a educação recebida pelos jovens em nosso país está a beira da falência, tanto técnica quanto moral, ética e até cultural.

Estou falando, obviamente, dos erros apontados nas redações do ENEM. Erros técnicos – como redações com nota máxima que apresentam erros como “trousse”, e erros morais, como a simpática receita de miojo colocada na prova por um aluno. Uma situação surreal em vários níveis diferentes. O primeiro, claro: a falta de noção do aluno, de tomar a decisão de fazer uma coisa dessas em uma prova como o ENEM, que, por mais ridícula que seja, pode definir seu futuro acadêmico. A segunda, do MEC, de querer justificar que um absurdo desse tem alguma interpretação que não seja a de uma cagada gigantesca. Até o fato de a receita ser de miojo é preocupante: o jovem é tão intelectualmente preguiçoso que transcreveu a segunda receita mais fácil da culinária, só atrás do gelo. É absolutamente vergonhoso ver que um tipo desses corra um sério risco de entrar numa universidade e ter um diploma de curso superior.

Ah sim, e teve a história dos sujeitos do direito da UFMG, faculdade da qual sou ex-aluno, inclusive. Eu poderia seguir a linha do MEC e argumentar que eles são um produto desse meio doentio descrito aí em cima, mas isso seria imbecil da minha parte. Vou dizer apenas que adorei a atitude deles, e adorei o fato de ele ter sido fartamente documentada e divulgada. Achei ótimo ela ser tão sintomática.

Porque nada melhor que sintomas como náuseas e uma bela dor de cabeça pra te mostrar que tem alguma coisa errada. E que a educação que estamos recebendo no Brasil precisa ser hospitalizada com urgência.


O idiota de Schrödinger

O velho Schrödinger era um desses cientistas que, de tão inteligentes, você não consegue entender porra nenhuma que eles falam. No caso específico de Schrödinger: numa tentativa de explicar física quântica, ele inventou uma situação hipotética em que um gato numa caixa poderia estar ao mesmo tempo vivo e morto. Não tenho a menor inclinação em me interessar por física quântica, mas amo metáforas. Então vou pegar emprestado o exemplo do gato que está ao mesmo tempo vivo e morto para falar de situações conceitualmente opostas que parecem ocorrer simultaneamente nos mesmos seres sem maiores problemas. Estou falando dos idiotas de Schrödinger.

O termo “idiota de Schrödinger” me ocorreu hoje ao voltar pra casa, dentro de um ônibus lotado. Havia uma moça sentada à minha frente, que ao mexer no cabelo revelou uma tatuagem no antebraço: um coração com as iniciais “A. J.”. “Caramba” – pensei, “Pior do que tatuar o nome é tatuar as iniciais do cara. Você é ao mesmo tempo baranga o suficiente pra fazer a tatuagem e covarde o suficiente pra não fazer”. Eis que me ocorreu a iluminação: na situação-base de fazer uma tatuagem com o nome do amado, a mocinha ponderou os dois lados conceitualmente opostos (o amor eterno e a grande possibilidade de dar merda) e, incapaz de decidir-se entre um desses lados, escolheu uma posição intermediária medíocre, que nem preservou seu antebraço de uma tatuagem com grandes potenciais de arrependimento e nem passa o significado personalizado que ela queria (“A. J.” pode ser tanto Allysson Jilberto quanto AJ, o Backstreet Boy). Ela está ao mesmo tempo errada de fazer e de não fazer a tatuagem. Eis o idiota de Schrödinger!

Fiquei pensando em outros exemplos de idiotas de Schrödinger pra ver se o termo fazia mesmo sentido. Comecei a buscar na memória pessoas que abrigavam em si comportamentos e situações opostas na essência, e que conseguem conviver com isso sem explodir e abrir um buraco no contínuo espaço-tempo. Pensei nos fumantes que praticam atividades físicas regularmente. Pensei nos católicos que usam camisinha… Ao descer do ônibus, já queria correr pra escrever esse texto e “patentear” o termo. Foi então que comecei a lamentar o fato de que provavelmente nunca mais verei a menina que me inspirou esse pensamento. “Que pena. Onde vou achar outro espécime que represente tão bem o idiota de Schrödinger?”

Foi então que abri um site de notícias, e vi que o Presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados diz frases como: “a AIDS é o câncer gay” e “Nós também recebemos o gene africano. Por isso alguns lugares do Brasil são muito pesados”. Estava ali o exemplo perfeito do idiota de Schrödinger. Mas então outro pensamento me ocorreu: se você consegue presenciar uma situação como essa não se posicionar a respeito de certos assuntos “pra não desgastar”, o exemplo perfeito do idiota de Schrödinger é você.