Uma agência chamada Breaking Bad

Como todas as pessoas que assistiram pelo menos dois minutos e quarenta e cinco segundos dessa bela série televisiva, eu sou um fã de Breaking Bad. Imagine portanto o tamanho da minha emoção quando eu descobri que a série era, na verdade, uma grande metáfora para o cotidiano de uma agência de publicidade, sendo seus personagens os atores dessa rotina eletrizante, emocionante, desgastante e viciante. Acompanhe:

Skyler – o Marketing do Cliente: a personificação do stress, é a pessoa que está com cara de bunda 90% das vezes que você olha pra ela. Além disso, é também aquela pessoa que vai passar metade do tempo te cobrando uma solução pro problema sem mover um dedo pra te ajudar. A outra metade do tempo ela vai passar criticando a solução pro problema que você arrumou. Sem mover um dedo pra te ajudar.

Tuco – o Cliente: demanda entregas impossíveis, manda pessoas da sua própria equipe para a morte, possui um senso de humor completamente sádico e um senso estético muito duvidoso. Na verdade, é um completo psicopata. Precisa falar mais?

Walter Jr. – o Atendimento: Bom coração, no fundo o pequeno Walt só quer fazer parte de uma grande família feliz. Mas a grande verdade é que ele não sabe de nada e passa o tempo todo babando.

Gus – o Planejamento: Acha que entende do negócio. E no fundo pra ele a vida se resume a isso: o negócio. No começo até demonstrava alguma criatividade na hora de resolver seus problemas, mas depois parou de colocar a mão na massa e virou um tremendo chato que vive colocando a equipe em situações potencialmente perigosas.

Jesse – o Designer: Mimadinho, mal humoradinho, se acha o fodinha e pensa que seu trabalho é a oitava maravilha do mundo. Mas no fundo seu trabalho só sai direito porque alguém mais velho, mais centrado e com mais noção do que o mundo realmente é bota a mão pra consertar depois. Porque a grande verdade é que tudo que ele tenta fazer da cabeça dele acaba dando merda.

Hank – o Estagiário da criação: ri de tudo, acha que é o melhor no seu trabalho e que é o amigão da galera, mas a grande verdade é que não sabe de nada do que está acontecendo debaixo do seu nariz e, na hora que o bicho pega, se revela um grande cagalhão.

Os gêmeos – a Dupla de criação: Pagam de fodões, não se relacionam muito com ninguém que não sejam um ao outro e são considerados as pessoas certas pra resolver o problema. Mas no final das contas não passam de dois pau mandados que falham miseravelmente na missão de ensinar alguma coisa pro Hank (estagiário).

Saul – o Administrativo Financeiro: ele pode até rir pra você, ser simpático com você e ser a pessoa que você liga quando precisa resolver alguma burocracia que apareça no caminho, mas não se engane: ou ele vê o dinheiro entrando, ou essa simpatia toda vai embora na hora. Ah, e apesar de estar envolvido nisso até o pescoço, ele não entende direito como esse negócio funciona.

Mike – o Operações: Esse sim sabe como a coisa funciona. Esse sim sabe qual o papel de cada um nesse negócio. Esse sim pode te fuder grandão sem nem mudar o semblante. Mas ele prefere não fazer isso. Esse cara já viu o que acontece quando dá merda e ele prefere que isso não aconteça. Esse cara só quer ir pra casa. Mas vai ser o último a sair.

Walter – o Diretor de Criação: o cara vive uma vida em dois mundos: lida com todos os trâmites venenosos do negócio, tem que lidar com as loucuras da Skyler (cliente), com a alienação do Walter Jr (atendimento), com os chiliques do Jesse (Designer) e por aí vai. Mas ao mesmo tempo é o responsável por uma criação fantástica e é o bambambam do pedaço, o que faz dele a pessoa mais fodona e mais miserável do mundo ao mesmo tempo. Não é a toa que ficou doente.

Breaking Bad – a agência: É um drama. E a gente ama. E quando sai pra tomar cerveja, é disso que a gente fala.

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A vingança do atendimento

#humordobem

09:45

Atendimento ao telefone:

– Oiê! Tudo tranquilo? Já entrou em todos os sites, blogs, deu check in, colocou as hashtags no insta e todas as referências fodásticas no pinterest?

Criação (esfregando o rosto):

– Já, por que?

– Porque eu vou passar um job aí pra você.

– Marco Feliciano nos proteja, lá vem bomba.

– Aí que você se engana bobinho. Depois que criaram o Grupo de Atendimento, essa realidade mudou, queridô. Já alinhei o briefing com o cliente, já escrevi, peguei umas referências, revisei o português, negociei prazo e tô te mandando agora! Pode abrir sua pauta aí.

Criação (levemente surpreso):

– Meu deus… e não é que tá aqui mesmo?

– Eu falei… Só pra destacar os pontos mais importantes aí: é pra criar um filme pra Mercedes. A essência é a mesma daquele filme da Luiza que fizemos um tempo atrás, lembra? Apesar de ser uma marca de luxo, li num relatório de tendência que fala que o novo filão das marcas é o “luxo acessível”. Ainda mais em um mercado como o Brasil né, queridô, com todos os incentivos do governo para a população comprar carros, redução do IPI etc, mais a nova Classe C comprando cada vez mais e melhor… enfim, você sabe do que eu tô falando.

Criação (fingindo que sabe):

– É… total. ducaralho isso aí. Foda.

– Ah, e fiz um curso de neuromarketing outro dia, e lá estávamos discutindo que esse negócio de varejão não tá colando muito mais não. Tenta mostrar os atributos do carro de uma maneira mais subjetiva.

Criação (agora realmente assustado):

– Beleza. Vou colocar alguém aqui pra pensar esse job comigo.

10:30

Atendimento (enquanto folheia a Meio & Mensagem):

– Queridô, já tá tocando o job? Troca uma ideia com o planejamento que ele tá aqui putinho no email falando que tem uns insights bacanas pra dividir com vocês… sabe como é né. Parece que passou aquela febre dele de querer colocar o Neymar pra vender tudo que é produto. Cismou agora que entende de digital… “díxhital”, como diz ele. Afe. Enfim, diz ele aqui que a moda agora é pegar carona nos memes do momento.

Criação (que já tinha passado o job pro estagiário a muuuuuito tempo):

– Ah… tá. Vou avisar aqui.

Dois dias depois, 17:40

Atendimento (tranquilo e sereno):

– E aí, como tá aquele job?

–  Indo.

– Quer que tente negociar mais prazo com o cliente?

Criação (desconfiado):

– a…acho que não.

– Ok então. Queridô, estava pesquisando umas referências aq…

– Espera, espera, espera… você?

– Eu.

– Pesquisando referências?

– Sim.

– Depois de já ter entrado com o job?

– Te falei que mudei, queridô.

– Que medo.

– Enfim, vou te passar por email.

18:30 (Atendimento por email):

– Olha só, está aqui a referência. Podia sair algo com essa pegada, hein?

https://www.youtube.com/watch?v=b8UDCxzLfEA

18:45 (Criação responde):

Valeu. Vou encaminhar pro estagiário aqui que ele que tá tocando isso. Tem que ver um email que o planejamento mandou aqui com outra trilha também.

Sexta feira, dia da apresentação.

Criação (descansada e feliz):

– Bom, taí o filme. Queríamos uma coisa um pouco diferente, mas o planejamento deu chilique pra colocar a trilha que ele escolheu.

Atendimento:

– Aiaiai queridô, mas você tá botando fé na peça? A menina do marketing lá é nova hein, recém formada em administração, uma gracinha. Mas não sei do que ela gosta ainda.

– Ah, vamos ver o que dá…

– Ok, vou apresentar com todo o empenho para que seja aprovada. Confio no trabalho da agência e nunca passou pela minha cabeça barrar um trabalho aqui dentro antes de mostrar pro cliente. Vamo que vamo!

Criação (apaixonado):

– Isso aí! Vamo que vamo!

Email do atendimento, mais tarde aquele dia, para criação, planejamento e estagiário:

– Queridôs, ela achou surreal esse conceito Classe A pra Classe C. Falou que vocês estão assistindo demais o programa da Regina Casé. Bom, eu ainda tentei salvar e sugeri a ela que pré-testasse a campanha. Mas ela não entendeu muito bem quando eu expliquei que pré teste era mostrar pro público antes de colocar na TV. Acabou colocando no youtube. Dá uma olhada aí:

https://www.youtube.com/watch?v=MMGr77s3QFk

Vamos torcer pra galera gostar né?

Beijos!

PS: Apesar de ainda estar absorvendo a surrealidade, gostei muito da campanha do Classe A. Mas eu gosto mais da zueira.