O paradoxo de Angelina Jolie

Pra quem não conhece a linha 9250 do transporte público de Belo Horizonte permitam-me tentar explicar o que é:

É o Brasil sobre rodas.

Cobre uma imensa extensão geográfica, parece absolutamente desgovernado pra quem tá dentro e atrasado pra quem tá fora, seus sentimentos de torcida pra ele chegar lá estão sempre dividindo espaço com o medo de que ele vai quebrar a qualquer momento e quem tá conduzindo te deixa com apenas uma dúvida: ou não tem a menor ideia do que tá fazendo ou então odeia quem tá lá dentro. Um povo misturado que aliás é muito fácil de odiar: tem eu, tem trabalhador, tem estudante, tem aposentado, tem menor infrator, tem maior infrator, tem crente gritando, tem a playboyzada que pega só um pedacinho pra ir da zona sul pro shopping mas reclama como se vivesse as mazelas do itinerário inteiro, tem feminista que comenta indignada sobre a propaganda que tá vendo pela janela e reclamando que alguém precisa se levantar contra o machismo (enquanto um velho fica passando a piroca na garotinha sentada do seu lado), tem gordo que ocupa o corredor inteiro e ainda acha que tem o direito de usar mochila e ainda acha que tem o direito de reclamar de “gordofobia”, tem gente comendo McDonalds de camisa do Che Guevara, tem gente que dorme e perde o ponto e bota a culpa no motorista. Aliás, tal qual c e r t o s países, todo mundo odeia o motorista. O que só contribui pra impressão de que ou o motorista vai desligar o carro e falar FODA-SE e sair fora (já aconteceu. Três vezes.) ou essa galera vai estourar uma guerra civil lá dentro e linchar o motorista.

Olha ele aí. Pra quem não sabe, o 9250 é tipo a "polêmica do vestido": a BHTrans vai te jurar que esse ônibus é amarelo.

Olha ele aí. Pra quem não sabe, o 9250 é tipo a “polêmica do vestido”: a BHTrans vai te jurar que esse ônibus é amarelo.

Pois bem, essa Babilônia móvel, na qual passo algumas horas do meu dia já foi cenário de inspiração de muitos textos desse blog*, tipo esse https://palavraimpropria.wordpress.com/2014/04/09/sergipe-um-estado-inabitado/, esse https://palavraimpropria.wordpress.com/2014/03/20/o-que-tem-me-preocupado-nessa-vida/, esse https://palavraimpropria.wordpress.com/2013/04/23/a-conspiracao-do-bacon/, e esse https://palavraimpropria.wordpress.com/2011/08/22/cada-um-com-seus-problemas/.

Estava refletindo sobre isso hoje, porque peguei uma chuva do caralho saindo do trabalho e fiquei mais de uma hora esperando o ônibus sem poder tirar o livro nem o celular da mochila (mais pelo medo de assalto do que pela chuva). Resolvi pensar em um texto pro blog, coisa que tem meses que não faço porque estou em um completo branco criativo. Achei que meu ódio pelo 9250 poderia me dar insights pra sair desse branco. Não deu.

Aí comecei a pensar que preciso sair da terapia.

Eu costumo ter ótimas ideias pra escrever quando estou puto com alguma coisa ou mal humorado, coisa que não tem acontecido mais com tanta intensidade e frequência. Aí eu não consigo escrever porque não tô puto e mal humorado. Aí eu fico um pouco puto e mal humorado porque não consigo escrever.

Me senti a Angelina Jolie, que vai acabar morrendo porque tá retirando todos os seus órgãos pra escapar da morte.

Mas pelo menos agora tô feliz porque tô puto e mal humorado e consegui escrever um texto.

Obrigado 9250!

(*Nessa hora eu penso que o cenário de inspiração do Gabriel Garcia Marquez era Cartagena, do Tom Jobim era Ipanema e o meu é o 9250, me dou conta do tanto que eu sou fudido e quase desisti de escrever.)

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