Naqueles dois minutos

Poucas vezes na vida alguém escolhe deliberadamente um caminho tão sofrido como quando, pelo motivo que seja, escolhe ser atleticano. E poucas vezes um momento consegue resumir tão perfeitamente toda uma existência.

Naqueles dois minutos entre a marcação do pênalti e o voleio salvador de Victor foi revisitada a vida inteira do Clube Atlético Mineiro.

Naqueles dois minutos que fomos eliminados da Libertadores, pesaram mais de 100 anos de uma história muito bonita, mas que de fato é carente em momentos de consagração.

Naqueles dois minutos vieram as lembranças de todas as vezes desses mais de 100 anos em que fomos derrotados por ironias do destino, por falta de competência, de sorte e pela má fé de terceiros.

Naqueles dois minutos estava resumida uma história de mais de 100 anos de momentos de abatimento e de forças retiradas sabe-se lá de onde para levantar a cabeça e continuar torcendo pelo Galo.

Naqueles dois minutos estávamos nos preparando para, mais uma vez em mais de 100 anos, resignarmos e reconhecer que havíamos chegado longe, e a jornada havia sido incrível.

Naqueles dois minutos foi impossível não pensar que o Horto, dessa vez, poderia ser a nossa própria sepultura, para deleite de nossos adversários mais mesquinhos.

Sem dúvida, aquele pênalti aos 46, que podia selar o destino do Galo de maneira trágica e cruel diante de sua torcida, resume uma história de dramático amor. Aquele pênalti começou a ser batido em 1908. E naqueles dois minutos (que começaram em 1908) passamos por todos os anos em que ficamos pelo caminho.

Mas não estamos mais em nenhum desses anos. Estamos em 2013.

E todo mundo sabe que 13 é Galo. Místico. Como mística é a torcida, que merece a camisa 12 porque é o coração que pulsa energia para dentro do campo. E místico é nosso estádio, nossa fortaleza, até hoje impenetrável. E místico foi o nosso goleiro, agigantado, que rebateu com o pé esquerdo mais que uma bola: rebateu um drama centenário. Místicos foram aqueles dois minutos em que foi possível sentir a temperatura de Belo Horizonte cair a um frio cadavérico para depois explodir em um calor irradiado do Horto.

Já passava da meia noite quando acabou uma das provações mais terríveis pela qual a torcida atleticana já passou.

E todo mundo sabe que, quando passa da meia noite, nasce um novo dia. E quando nasce um novo dia, o Galo canta. Pra mostrar que ainda está vivo e que manda no terreiro.

Em frente, Galo. Contra o vento.

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Pequenos divertimentos na vida de uma pessoa sarcástica II – agora em fotos

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Nunca aceite doces de estranhos

Dia 1 – 17:53

Hoje é o meu primeiro dia na clínica de reabilitação. Fazem dois meses que fui demitido, e duas semanas desde que a polícia invadiu minha casa e encontrou os iPhones roubados. Para minha sorte, o juiz reconheceu que meu vício é um problema social, não um caso de cadeia. Espero que aqui na clínica eu consiga me recuperar e voltar a ter uma vida normal, sem crises de ansiedade, sem a paranóia e sem me desligar do mundo e entrar num universo paralelo.

Eu já passei por fases difíceis na vida, mas nenhuma se compara à fase 42 de Candy Crush Saga.

“O doce”, como o jogo é conhecido no submundo das drogas. No começo era só curtição. Todos os amigos usando. Era fácil conseguir. Era divertido dar uma relaxada no intervalo do trabalho.

Mas aí veio a vontade de jogar antes de dormir. E as noites viradas com aquele velho pensamento errado: “é só mais essa. Eu paro a hora que eu quiser”. E então vieram as fases mais pesadas. Eu perdia tudo que havia conquistado ao longo do tempo. E o tempo começou a ser meu maior inimigo. Vieram as crises de abstinência: primeiro de meia hora, depois de vinte e quatro horas. Aquilo era insuportável. Eu não podia esperar aquele tempo. Eu precisava conseguir mais. E então vem a humilhação de conectar ao facebook e pedir mais aos amigos. Os mesmos amigos que te apresentam ao vício são aqueles que vão te zoar por isso depois.

E então veio o pior: a fase 42. A fase 42 consumiu minhas energias. Me deixou com uma fixação incrível por dias. Me deu calafrios. Me entusiasmou. Me fez ter crises de raiva incríveis. Me fez chorar até espumar pela boca de desespero. Eu pedi vida aos amigos. Eu comprei pacotes na Apple Store. Mas nada. Nada me fazia passar da fase 42. Aí a coisa começou a ficar fora de controle: fui em uma festa infantil e coloquei todos os brigadeiros no bolso “pra usar mais tarde”. Uma vendedora entrou no escritório vendendo gelatina e eu a agredi com um soco. Fui demitido.

E então veio o desespero. A cada meia hora de abstinência eu roubava um iPhone, instalava Candy Crush e jogava até a fase 42. E nada.

A polícia chegou. Me prendeu em flagrante com 13 iPhones roubados, um saco de jujubas, três dias sem dormir e uma semana sem banho.

Mas agora estou aqui. Completando 24 horas sem jogar. Já me sinto melhor. Vou agora tomar um relaxante banho.

—–

23:11

O banheiro da clínica é revestido com aqueles azulejos quadrados, cinza claros. Passei as últimas três horas desenhando nesses azulejos esquemas táticos para passar da fase 42 com sabonete e pasta de dente. Não tomei banho.

Eu preciso fugir daqui.

 

* Contribuiu Paula Gondim, que ontem deletou Candy Crush de seu telefone. E desde então já fumou três maços de cigarro.