Dá o play, macaco!

Eu ouvia a frase que intitula este texto de segunda a sexta, mais ou menos às seis e meia da noite, todos os dias que chegava da escola pra ver desenho animado tomando toddynho. A frase era dita por um ator mirim do programa Disney Cruj. A sigla “Cruj” quer dizer “Comitê Revolucionário Ultra Jovem”, expressão que eu depois comecei a usar para designar jovens de coração bom criados tomando toddynho e vendo desenho que queriam mudar o mundo a partir das ações mais estapafúrdias. Enfim, um apelido (tipo o “esquerda caviar” criado pelo Rodrigo Constantino, só que sem a prepotência e o embasamento pseudo teórico), ou seja, só um apelido.

Sabe o que mais foi considerado “tipo um apelido” recentemente?

Chamar os outros de macaco. Tá na fala do idealizador da campanha #somostodosmacacos na entrevista da Veja, olha só: “E decidimos trabalhar a ideia de que a melhor maneira de acabar com o preconceito é tirar a força dele e fazer com que a pessoa não repita o ato. É como um apelido. Quanto mais bravo você fica, mais ele pega. Foi aí que criamos #somostodosmacacos.”

E sabe o que eu penso de tudo isso?

Que eu avisei, revolucionários ultra jovens. A culpa dessa presepada é muito de vocês.

Quando TUDO passa a ser considerado preconceito, violência simbólica, ou o que quer que seja, NADA passa a ser. Relativizar sem refletir dá origem a esse tipo de comportamento que só serve para emburrecer discussões sérias.

Cantada equivalendo a estupro.

Aplaudir os invasores do Instituto Royal que fizeram justiça com as próprias mãos pra um mês depois repudiar quem amarrou o menor no poste… porque fez justiça com as próprias mãos.

Nunca ter sido atingido pelo peso da palavra “macaco” e tirar foto com uma banana (uma banana!) para protestar contra o racismo.

Pessoalmente, eu detesto comportamentos inclusivos demais na mesma medida que detesto comportamentos exclusivos demais, porque ambos são ignorantes. Ambos excluem um processo de aceitação de diferença, de ponderação, de criação de raciocínio crítico. Ambos são hipócritas.

Refletir sobre as próprias contradições (e aceitar algumas delas sem apedrejar) é a melhor maneira de evoluir. Afinal #somostodosmacabros

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Plano de governo, rascunho 1

Você, brasileiro que está preocupado em não ter candidato pra votar porque todo mundo vem sempre com as mesmas propostas e tá mais preocupado em jogar lama no coleguinha do que em se mostrar preparado para guiar o país, se ajeita que em 2022 eu tô vindo aí, com medidas simples pra melhorar a sua, a minha, a nossa vida nesse brasilzão de deus.

Ajude a construir um país melhor apoiando nosso plano de governo.

–       Fim da Polícia Militar.

–       Estabelecimentos que servem coxinha ficam OBRIGADOS oferecer uma versão sem catupiry. Estabelecimentos que servem mate ficam OBRIGADOS a servir uma versão sem limão ou pêssego. Aliás, tá proibido catupiry e chá de limão e pêssego em todo território nacional.

–       Legalização da maconha.

–       Legalização do aborto.

–       Opção “conectar ao facebook” na urna eletrônica, pra todo mundo ver em quem você votou.

–       Aprovação da lei de tributação das igrejas.

–       Regulamentação do uso de photoshop por publicações masculinas.

–       Criação de faixa obrigatória para pessoas lentas, à direita, nas calçadas.

–       Telefone tocou mais de 3 vezes no ambiente de trabalho e ninguém atendeu, o cidadão que ligou é OBRIGADO a desligar, sob pena de multa.

–       PROIBIÇÃO do uso de dreads por cidadão que trabalha em empresas alimentícias em geral.

–       Extinção IMEDIATA do PMDB.

–       Internet livre e acessível a todos. TECLADOS, por outro lado, apenas mediante a testes de literatura, redação, conhecimentos gerais, metodologia de pesquisa e psicotécnico.

–       O brasileiro que, em seus textos, substituir o artigo definido por “X” (exemplo: estão todxs convidadxs para a feijoada vegetariana em apoio ao índios gays de cacimbinhas) será detidos e terá como pena um estágio supervisionado em telemarketing.


Sergipe, um estado inabitado

 

Quem critica o transporte público não sabe o privilégio que é ter tanto tempo, mas tanto tempo, MAS TANTO TEMPO ocioso entre esperar o ônibus e depois esperar ele cumprir seu trajeto para se dedicar a si mesmo. Explico: no último ano consegui ler, entre outros, os cinco livros de Game of Thrones apenas de casa para o trabalho e do trabalho pra casa. Além dos incontáveis discos novos que ouvi. Até assinei a Rolling Stone para descobrir mais coisas pra ouvir (e lê-la no ônibus, óbvio).

Entretanto, como eu ia dizendo, andar de ônibus te dá tanto tempo, mas tanto tempo que às vezes o livro acaba, o iPod acaba a bateria e é aí que começa o que eu costumo chamar de viagem de autoconhecimento: o momento em que, geralmente voltando para casa à noite, minha mente ociosa já pensou tudo que tinha para pensar no dia e começa a questionar-se as coisas mais diversas.

 

“- Quais os planos pro fim de semana, Dudu?”

 

“- Você vai conseguir guardar dinheiro na poupança esse mês, Dudu?”

 

“- Já pensou no que vai fazer no seu aniversário Dudu?”

 

“- E o Anelka no Galo, hein, Dudu?”

 

Porém, como eu já disse, as vezes o ônibus demora tanto tempo, mas tanto tempo, que lá pelos últimos pontos antes de chegar ao meu até mesmo esses questionamentos se esgotam, e começam a ficar cada vez mais estapafúrdios:

 

“- Onde será que está o avião da Malásia, Dudu?”

 

“- Se Deus é onipotente, ele consegue criar uma pedra tão pesada que nem ele mesmo consiga carregar, Dudu?”

 

“- Porque quando você pensa na expressão “Botar a boca no trombone” sua mente imagina uma tuba (e não um trombone), Dudu?”

 

“- Por que ainda não existe um Netflix pornô, Dudu? Por que você não cria um, Dudu?”®

 

Ontem, foi um desses dias em que o ônibus demorou tanto tempo, mas tanto tempo pra passar que o livro que eu estava lendo acabou, a bateria do iPod acabou, eu entrei numa jornada de autoconhecimento e minha mente questionou o seguinte:

 

“- Quando foi a última vez que você ouviu falar de um sergipano, Dudu?”

 

Eis que eu cheguei à chocante constatação: eu acho que eu nunca ouvi falar de um sergipano! Obviamente a primeira coisa que fiz hoje foi questionar as pessoas ao meu redor sobre quando foi a última vez que elas ouviram falar em um sergipano. Tirando uma pessoa que lembrou que o Nilson Sergipano (que a gente nem sabe se é sergipano mesmo) jogou no Galo, ninguém mais deu notícia, o que nos leva a apenas uma conclusão óbvia:

 

Sergipe é um estado inabitado.

 

 

Nota do autor: antes de pedir pra polícia federal tirar meu blog do ar por xenofobia, questione-se: quando foi a última vez que você ouviu falar de um sergipano? Se você for sergipano, manda a cópia do RG comprovando e uma piada sobre mineiro. Esse texto é sobre a demora dos ônibus de BH, não é sobre você.