A perigosa expansão das babaquerias

Lembra na escola, aquele seu coleguinha homem, heterossexual (à época), que tirava muita onda e se achava bom aluno só porque tinha uma caixa de lápis de cor de 72 cores? Então. É provável que esse coleguinha tenha crescido e esteja, neste momento, pensando em abrir uma babaqueria.

A babaqueria é geralmente aquele estabelecimento cujo nome termina em “eria”, ou possui um nome italianado terminado em “are” ou ainda um adjetivo logo abaixo da marca, tipo “gourmet”. Porém, essas são as babaquerias fáceis de reconhecer. Porque a babaqueria não se define pelo nome, se define pelo coceito de ser um lugar com uma proposta diferenciada em cima de coisas que já existem. Para ser uma babaqueria, essa suposta diferenciação tem que estar baseada pura e simplesmente na cagação de regra do meninão empreendedor que vai fundar a babaqueria.

Não me leve a mal, caro leitor. Eu também gosto de comer um hamburger diferentinho. Entretanto, existe uma diferença entre uma casa que oferece um hamburger de avestruz no pão árabe (a Hamburgueria) e uma casa que oferece “redução de cheddar com pimenta biquinho” (a Babaqueria). Cheddar com pimenta biquinho é ruim? De maneira alguma. Porém não me venha adjetivar uma coisa absolutamente banal como se fosse um privilégio degustar tamanha invencionice de um chef de cozinha muito do contemporâneo. E principalmente: não me venha cobrar 45 reais por uma porra de um hambúrguer Seara com queijo por cima. Sim, porque esse é outro problema da babaqueria. Essa “diferenciação” tem um preço. O lugar pode começar até com uma proposta legal, atendimento agradável, lugar bonito e tudo mais… aí quando você percebe está pagando 40 reais pra comer canja de galinha.

Porém não pense você que o conceito de babaqueria fica restrito aos estabelecimentos alimentícios, porque não fica. Seguem três exemplos de como isso se impregnou na sociedade:

–       As arenas: estádio de futebol moderno é uma beleza. Lindão, confortável e tudo mais. Por si só ele não é uma babaqueria, mesmo porque sentir saudade de sentar no concreto, tomar chuva e ficar cheirando mijo é coisa de idiota. Porém, o que transforma a arena numa perfeita babaqueria é a ideia que querem vender de que você deve pagar o preço que for pra entrar nesse lugar e principalmente, que durante a Copa você tem que ir curtir os jogos e se esquecer do que está em volta. A babaqueria futebolística te deixa confortavelmente de quatro enquanto a Copa bota tudo no seu rabo.

–       As marcas de roupa: aqui existem dois segmentos, as babaquerias do momento – tipo as marcas de roupas surgidas sabe-se lá de onde que de repente está todo mundo usando e pagando 2894 reias por uma camiseta com um pica pauzinho desenhado, sem nem se perguntar quem é o pica pau? De onde veio? Porque acha que merece tanto do meu ordenado? Por outro lado existem as babaquerias tradicionais. Foi nelas que o pica pau se inspirou. Elas também começaram como um cavalinho. Só que para combaterem o picapauzinho, o cavalinho cresceu e ficou mais caro. Cresceu muito. Cresceu e continua a crescer. Rumores dizem que a próxima coleção de camisas não virá com um cavalo estampado, mas com uma cordinha que o usuário da camisa puxa e ela infla um cavalo em tamanho real em cima dele. Ideal para chamar atenção das moças de conteúdo nas festinhas. O que nos leva ao nosso terceiro conceito de babaqueria.

–       A vida noturna: A babaqueria invadiu a vida noturna com força. Começou tímida, botando velinha de faísca em cima de garrafa de champagne, aí evoluiu pra baladinhas em que só se entra com o nome na porta e é “secreta” (mas sai em reportagem-release de revista). Atingiu até a comida de boteco, em que o prato premiado no último festival do gênero era  cone de ragu de linguiça com creme de gorgonzola. Faça-me o favor. E isso nem é o pior: existe agora o cinema premium, onde você paga o preço de produção do filme pra usufruir de uma sessão onde você vê o filme quase deitado numa poltrona maior, comendo pão de queijo e/ou salada enquanto toma vinho. Se é pra ver filme deitado tomando álcool e comendo pão de queijo por que diabos não ver a porra do filme em casa?!?!

“Ah Dudu, sem drama”, o leitor mais racional pode estar pensando, “é só não frequentar esses lugares uai”. Aí que você se engana. Porque se existem as babaquerias, é porque existem babacas para consumir. E esses babacas infelizmente consomem, e consomem muito, muitos produtos diferentes. E é nesse frequentador de babaqueria que o empresário (que geralmente também frequenta a babaqueria) está pensando, na hora de colocar preço nas coisas. E ele sabe que é só cagar uma regra de diferenciação, ou botar a culpa nos impostos, que o frequentador da babaqueria vai pagar o preço que for. E aí sabe o que ele faz? Ele extorque o cara da babaqueria, ele tenta te extorquir e ele tenta me extorquir. Ele tenta fazer a gente pagar um salário mínimo em ingresso de show ou, meu motivo de revolta atual, 4 mil reais em um videogame.

Ora, senhor empresário da indústria dos videogames frequentador de babaqueria… eu não preciso disso pra me divertir. Aliás, eu não conseguiria me divertir lembrando que paguei esse preço na coisa. Então, pode ficar com seu lucro, seu show, seu videogame e sua babaqueria. Eu não preciso disso pra me divertir.

Eu vou me divertir rindo da cara dos seus consumidores.

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Sobre usuários compulsivos de Bom Ar

O Bom Ar pode ser considerado uma daquelas invenções muito bem intencionadas, mas que deram terrivelmente errado, como por exemplo a pólvora, a dinamite e o “responder a todos” do email. Sua função é ser um odorizador de ambiente, ou seja, ele pretende deixar um lugar cheiroso. E porque ele deu errado? Porque na maioria das vezes o Bom Ar não é utilizado para deixar cheiroso um ambiente que não tem cheiro, mas sim um ambiente que está impregnado com algum odor fétido. A própria embalagem do Bom Ar recomenda que ele seja usado em locais onde se limpa peixe, por exemplo. Ou, seu uso mais encontrado, em banheiros de uso comum, frequentemente castigados pelas atividades intestinais de indivíduos com os mais diversos hábitos alimentares e floras bacterianas.

Isso faz do Bom Ar um paliativo: tenta-se combater com cheiros agradáveis os cheiros desagradáveis, de maneira artificial. Obviamente ele falha miseravelmente, deixando apenas a impressão de que um Teletubbie usou o banheiro, ou, numa linguagem mais escrachada, que alguém cagou no meio de uma loja do Boticário. Usar o Bom Ar é uma medida mal pensada que tenta passar a perna na natureza, quem tem seu tempo para tudo, inclusive para dissipar o cheiro de merda, simplesmente porque a situação que o odorizador de ambiente tenta combater desagrada a alguns mais sensíveis. Pior que isso, o Bom Ar foi criado para contrariar uma das leis fundamentais do universo: cagar é algo natural, e não existe bosta cheirosa.

A esta altura você deve estar pensando que este é um texto sobre Bom Ar, ou pior, sobre cocô. Bem, não. O Bom Ar é apenas uma metáfora para falar sobre uma outra invenção muito bem intencionada, mas que deu terrivelmente errado, e que foi omitida daquela pequena lista. Permita-me completá-la: a pólvora, a dinamite, o “responder a todos do email”, o Bom Ar e o politicamente correto. Essa última, o verdadeiro objeto deste texto.

Algumas iniciativas peculiares tem surgido em nossa comunidade ultimamente, todas com a pretensão de tornar o mundo um lugar melhor. Para não estender demais o assunto, citarei cinco (todas verdadeiras): uma campanha contra as cantadas à mulheres em lugares públicos, uma campanha contra xingamentos e troças homofóbicas entre torcidas, uma campanha do Zoológico de Belo Horizonte contra o uso do substantivo “anta” como xingamento (juro), uma campanha a favor dos mendigos no Bairro de Lourdes e uma campanha contra sentimentos negativos que pretende estimular que você “Perdoe seu Ladrão”.

Eu gosto de imaginar as pessoas que abraçam atos desse tipo como usuários compulsivos de Bom Ar. Algo no cheiro de merda incomoda muito essas pessoas. Veja bem, o Bom Ar não pode fazer nada em relação à merda em si. Apenas tenta disfarçar seu cheiro. E disfarçar o cheiro, convenhamos, não resolve o problema. Inclusive, por muitas vezes deixa o cheiro pior.

Naturalmente, eu não sou a favor de incomodar (muito menos assediar) mulheres na rua. Eu não sou a favor da discriminação de homossexuais. Eu não sou a favor da discriminação de mendigos. Eu não sou a favor da execução sumária de bandidos. Em relação à anta… bem, eu não sou a favor de maltratá-la também, mas eu não acho que ela se sinta maltratada por seu nome ser usado como xingamento. O que acontece é que nossa vontade de transformar o mundo em um lugar mais cheiroso está dando errado. Os usuários compulsivos de Bom Ar estão exagerando na dose. Não é possível que alguém ache que problemas como o machismo, a homofobia, entre outros serão resolvidos com comportamentos que nivelam um “fiu fiu” a assédio sexual, nivelam uma tiração de sarro que afeminiza o adversário em um ambiente que carrega na testosterona a uma violência explícita… do mesmo jeito que combater a elitização de ambientes não pode equivaler a ser a favor da mendicância (um piquenique parece muito mais uma afronta aos moradores que uma ajuda aos mendigos, não?) e praticar o desapego não pode equivaler a perdoar alguém que deliberadamente te fez mal. Quanto à anta… bem, pode ser que o burro leve essa situação mais de boa. Em suma: babaquice e falta de educação não são crimes, e criminalizá-las só piora o problema.

Pessoas possuem sentimentos e comportamentos negativos. Aprender a lidar com eles é o caminho. Tentar erradicá-los não. O Bom Ar não consegue impedir as pessoas de cagarem. E pensando bem, é o comportamento de babacas que nos permite perceber que algo está errado na sociedade, do mesmo jeito que o cheiro da merda nos permite perceber que existe uma merda por perto.

Bom Ar não resolve o problema. Só acentua ainda mais seus sintomas. Já diria o Senador Cristovam Buarque: a solução está na educação. Falta de educação não se combate com paliativos, se combate com educação. E educar não é punir. Se o mundo quer lidar com a merda de verdade, não precisa de Bom Ar. Precisa de pessoas que projetem banheiros mais ventilados. Precisa de pessoas que saibam lidar com sua floras intestinais. Pessoas que saibam lidar com suas dietas. E principalmente pessoas que saibam lidar com o espaço de manifestação do outro. Inclusive quando o outro é babaca. Afinal, até os usuários compulsivos de Bom Ar se permitem uma cagada ocasional. Cagadas são naturais. E tentar disfarçar o cheiro da merda não é o melhor caminho para mostrar aos outros que ninguém é obrigado a aturar o cheiro da cagada pela qual um terceiro é responsável.