Quem tem medo do Boticário?

O novo alvo da cruzada fundamentalista cristã que parece querer transformar o Brasil num grande grupo do whatsapp de família é uma propaganda do Boticário que mostra pessoas do mesmo sexo demonstrando afeto umas com as outras (sim. é isso mesmo e apenas isso. Porque não rola um beijinho nem nada).

O faniquito todo do pessoal do culto se dá porque, de acordo com eles, a propaganda fere “os valores bíblicos”. Longe de mim querer discordar de um livro tão atual e com interpretações tão claras, mas ficam aqui duas reflexões pra quem quer boicotar o Boticário:

1- Se uma propaganda de 30 segundos na TV é capaz de atacar seus valores, o problema não é a força da publicidade: é a força dos seus valores.

2- Se você está tendo dificuldades de explicar afeto e amor para seus filhos, talvez você não devesse ser pai. E certamente você não entendeu porque Jesus desceu aqui embaixo pra dar palestra aquela vez.

Sem mimimi.

Paz e bem.


Uma agência chamada Breaking Bad

Como todas as pessoas que assistiram pelo menos dois minutos e quarenta e cinco segundos dessa bela série televisiva, eu sou um fã de Breaking Bad. Imagine portanto o tamanho da minha emoção quando eu descobri que a série era, na verdade, uma grande metáfora para o cotidiano de uma agência de publicidade, sendo seus personagens os atores dessa rotina eletrizante, emocionante, desgastante e viciante. Acompanhe:

Skyler – o Marketing do Cliente: a personificação do stress, é a pessoa que está com cara de bunda 90% das vezes que você olha pra ela. Além disso, é também aquela pessoa que vai passar metade do tempo te cobrando uma solução pro problema sem mover um dedo pra te ajudar. A outra metade do tempo ela vai passar criticando a solução pro problema que você arrumou. Sem mover um dedo pra te ajudar.

Tuco – o Cliente: demanda entregas impossíveis, manda pessoas da sua própria equipe para a morte, possui um senso de humor completamente sádico e um senso estético muito duvidoso. Na verdade, é um completo psicopata. Precisa falar mais?

Walter Jr. – o Atendimento: Bom coração, no fundo o pequeno Walt só quer fazer parte de uma grande família feliz. Mas a grande verdade é que ele não sabe de nada e passa o tempo todo babando.

Gus – o Planejamento: Acha que entende do negócio. E no fundo pra ele a vida se resume a isso: o negócio. No começo até demonstrava alguma criatividade na hora de resolver seus problemas, mas depois parou de colocar a mão na massa e virou um tremendo chato que vive colocando a equipe em situações potencialmente perigosas.

Jesse – o Designer: Mimadinho, mal humoradinho, se acha o fodinha e pensa que seu trabalho é a oitava maravilha do mundo. Mas no fundo seu trabalho só sai direito porque alguém mais velho, mais centrado e com mais noção do que o mundo realmente é bota a mão pra consertar depois. Porque a grande verdade é que tudo que ele tenta fazer da cabeça dele acaba dando merda.

Hank – o Estagiário da criação: ri de tudo, acha que é o melhor no seu trabalho e que é o amigão da galera, mas a grande verdade é que não sabe de nada do que está acontecendo debaixo do seu nariz e, na hora que o bicho pega, se revela um grande cagalhão.

Os gêmeos – a Dupla de criação: Pagam de fodões, não se relacionam muito com ninguém que não sejam um ao outro e são considerados as pessoas certas pra resolver o problema. Mas no final das contas não passam de dois pau mandados que falham miseravelmente na missão de ensinar alguma coisa pro Hank (estagiário).

Saul – o Administrativo Financeiro: ele pode até rir pra você, ser simpático com você e ser a pessoa que você liga quando precisa resolver alguma burocracia que apareça no caminho, mas não se engane: ou ele vê o dinheiro entrando, ou essa simpatia toda vai embora na hora. Ah, e apesar de estar envolvido nisso até o pescoço, ele não entende direito como esse negócio funciona.

Mike – o Operações: Esse sim sabe como a coisa funciona. Esse sim sabe qual o papel de cada um nesse negócio. Esse sim pode te fuder grandão sem nem mudar o semblante. Mas ele prefere não fazer isso. Esse cara já viu o que acontece quando dá merda e ele prefere que isso não aconteça. Esse cara só quer ir pra casa. Mas vai ser o último a sair.

Walter – o Diretor de Criação: o cara vive uma vida em dois mundos: lida com todos os trâmites venenosos do negócio, tem que lidar com as loucuras da Skyler (cliente), com a alienação do Walter Jr (atendimento), com os chiliques do Jesse (Designer) e por aí vai. Mas ao mesmo tempo é o responsável por uma criação fantástica e é o bambambam do pedaço, o que faz dele a pessoa mais fodona e mais miserável do mundo ao mesmo tempo. Não é a toa que ficou doente.

Breaking Bad – a agência: É um drama. E a gente ama. E quando sai pra tomar cerveja, é disso que a gente fala.


A vingança do atendimento

#humordobem

09:45

Atendimento ao telefone:

– Oiê! Tudo tranquilo? Já entrou em todos os sites, blogs, deu check in, colocou as hashtags no insta e todas as referências fodásticas no pinterest?

Criação (esfregando o rosto):

– Já, por que?

– Porque eu vou passar um job aí pra você.

– Marco Feliciano nos proteja, lá vem bomba.

– Aí que você se engana bobinho. Depois que criaram o Grupo de Atendimento, essa realidade mudou, queridô. Já alinhei o briefing com o cliente, já escrevi, peguei umas referências, revisei o português, negociei prazo e tô te mandando agora! Pode abrir sua pauta aí.

Criação (levemente surpreso):

– Meu deus… e não é que tá aqui mesmo?

– Eu falei… Só pra destacar os pontos mais importantes aí: é pra criar um filme pra Mercedes. A essência é a mesma daquele filme da Luiza que fizemos um tempo atrás, lembra? Apesar de ser uma marca de luxo, li num relatório de tendência que fala que o novo filão das marcas é o “luxo acessível”. Ainda mais em um mercado como o Brasil né, queridô, com todos os incentivos do governo para a população comprar carros, redução do IPI etc, mais a nova Classe C comprando cada vez mais e melhor… enfim, você sabe do que eu tô falando.

Criação (fingindo que sabe):

– É… total. ducaralho isso aí. Foda.

– Ah, e fiz um curso de neuromarketing outro dia, e lá estávamos discutindo que esse negócio de varejão não tá colando muito mais não. Tenta mostrar os atributos do carro de uma maneira mais subjetiva.

Criação (agora realmente assustado):

– Beleza. Vou colocar alguém aqui pra pensar esse job comigo.

10:30

Atendimento (enquanto folheia a Meio & Mensagem):

– Queridô, já tá tocando o job? Troca uma ideia com o planejamento que ele tá aqui putinho no email falando que tem uns insights bacanas pra dividir com vocês… sabe como é né. Parece que passou aquela febre dele de querer colocar o Neymar pra vender tudo que é produto. Cismou agora que entende de digital… “díxhital”, como diz ele. Afe. Enfim, diz ele aqui que a moda agora é pegar carona nos memes do momento.

Criação (que já tinha passado o job pro estagiário a muuuuuito tempo):

– Ah… tá. Vou avisar aqui.

Dois dias depois, 17:40

Atendimento (tranquilo e sereno):

– E aí, como tá aquele job?

–  Indo.

– Quer que tente negociar mais prazo com o cliente?

Criação (desconfiado):

– a…acho que não.

– Ok então. Queridô, estava pesquisando umas referências aq…

– Espera, espera, espera… você?

– Eu.

– Pesquisando referências?

– Sim.

– Depois de já ter entrado com o job?

– Te falei que mudei, queridô.

– Que medo.

– Enfim, vou te passar por email.

18:30 (Atendimento por email):

– Olha só, está aqui a referência. Podia sair algo com essa pegada, hein?

https://www.youtube.com/watch?v=b8UDCxzLfEA

18:45 (Criação responde):

Valeu. Vou encaminhar pro estagiário aqui que ele que tá tocando isso. Tem que ver um email que o planejamento mandou aqui com outra trilha também.

Sexta feira, dia da apresentação.

Criação (descansada e feliz):

– Bom, taí o filme. Queríamos uma coisa um pouco diferente, mas o planejamento deu chilique pra colocar a trilha que ele escolheu.

Atendimento:

– Aiaiai queridô, mas você tá botando fé na peça? A menina do marketing lá é nova hein, recém formada em administração, uma gracinha. Mas não sei do que ela gosta ainda.

– Ah, vamos ver o que dá…

– Ok, vou apresentar com todo o empenho para que seja aprovada. Confio no trabalho da agência e nunca passou pela minha cabeça barrar um trabalho aqui dentro antes de mostrar pro cliente. Vamo que vamo!

Criação (apaixonado):

– Isso aí! Vamo que vamo!

Email do atendimento, mais tarde aquele dia, para criação, planejamento e estagiário:

– Queridôs, ela achou surreal esse conceito Classe A pra Classe C. Falou que vocês estão assistindo demais o programa da Regina Casé. Bom, eu ainda tentei salvar e sugeri a ela que pré-testasse a campanha. Mas ela não entendeu muito bem quando eu expliquei que pré teste era mostrar pro público antes de colocar na TV. Acabou colocando no youtube. Dá uma olhada aí:

https://www.youtube.com/watch?v=MMGr77s3QFk

Vamos torcer pra galera gostar né?

Beijos!

PS: Apesar de ainda estar absorvendo a surrealidade, gostei muito da campanha do Classe A. Mas eu gosto mais da zueira.


Como Luiza foi parar no Canadá (relatos da vida em agência).

18:35

Atendimento ao telefone:

 – O cliente mandou um job pra um vídeo de lançamento do empreendimento. Vou precisar da ajuda de vocês pra reunir algumas informações pro pessoal da criação.

Planejamento (esfregando o rosto):

– Ok, qual o público?

Atendimento (com pressa):

– Olha, o cliente ainda não definiu muito bem, mas disse que é classe AB, mas também é acessível pra classe C que vem crescendo muito e quer um plus a mais: que o vídeo seja inspiracional pra classe D e E, pra reforçar a marca frente a esse público. A estratégia é boa né? Eu e a Marketing de lá fizemos MBA juntas.

Planejamento (cansado demais pra discutir):

– Putz. OK. Qual a verba?

– Não sei.

– A localização do empreendimento?

– Não sei.

– Os diferenciais do empreendimento?

– Não sei.

– Quando ele vai ser entregue?

– Não sei.

18:40

Planejamento (arranhando as paredes):

– Será que rola de ligar pra ele e perguntar então? Senão vai ficar foda definir alguma coisa.

Atendimento (já meio nervosa):

– Olha, não dá porque toda quarta esse horário ele joga tênis com o dono da agência e já saiu. E eu também tenho peeling facial marcado pra daqui 5 minutos, não posso ficar aqui. Olha, faz o seguinte: pensa num direcionamento ousado, mas tradicional… com uma pegada criativa, porém sem fugir muito dos padrões do mercado imobiliário. Ele gosta de humor, mas tem que passar a seriedade da compra de um apartamento. Ah, e também tem que ser requintado, mas numa linguagem acessível ao grande público. Enfim, o de sempre.

Planejamento (sentido uma dor fulminante no braço esquerdo):

– Tá, tá! Qual o prazo?

– Vou pedir pra criação me mandar até sete horas, porque o cliente viaja amanhã cedinho e quer ver antes. Vou enviar pro iPad dele do meu iPhone.

[…]

18:46

Criação ao telefone (Highway to Hell tocando alto ao fundo):

– Cara, o atendimento me mandou um email aqui, cheio de erro de português, pedindo pra fritar um roteiro de VT aqui, tem algum direcionamento aí que possa nos ajudar?

Planejamento (twitando indiretas enquanto fala ao telefone):

– Opa. Bom, a única coisa que deu pra pesquisar durante esse tempo é que a Classe AB tá investindo muito em lazer, curtir a vida… tipo viagens ao exterior, sabe? E dá muito valor à família. Lembra que o roteiro tem que ser ousado, mas tradicional… com uma pegada criativa, porém sem fugir muito dos padrões do mercado imobiliário. Ele gosta de humor, mas tem que passar a seriedade da compra de um apartamento. Ah, e também tem que ser requintado, mas numa linguagem acessível ao grande público. Enfim, o de sempre.

Criação (rindo por dentro):

– Belê. Em dois minutos mando pra ela aqui.

[…]

18:50

Email da criação no iPhone:

Ei! Segue o roteiro. Usamos uma super tendência que é que a classe Classe AB tá investindo muito em lazer, curtir a vida… tipo viagens ao exterior, sabe? E dá muito valor à família.

Beijão.

PS: que horas você sai do peeling? Minha banda vai tocar hoje naquele barzinho meio rock, meio cult super hypado, vai comigo?

[…]

19:00

Atendimento twitta:

Gente, alguém sabe como dá ctrl c crtl v no iPhone?

[…]

19:15

Boa noite, segue o roteiro com a defeza da criação:

Usamos uma super tendência que é que a classe Classe AB tá investindo muito em lazer, curtir a vida… tipo viagens ao exterior, sabe? E dá muito valor à família.

aguardo retorno.

Atensiosamente,

atendimento.

[…]

19:50

Atendimento ao telefone:

– Ei. O cliente falou que vai chegar em casa, tomar um banho, jantar, ver um filme, aí vai dar uma olhada no roteiro e perguntar pra esposa se ela gosta, fica aguardando aí que pode ter alguma alteração.

Criação (mastigando uma batata fria do McDonald`s):

– Putaqueopariu! É sempre a mesma merda! Manda esse vampiro ser rápido!

[…]

01:05

Email do atendimento:

Encaminhei pra você o retorno do cliente. Ele adorou tudo, só pediu pra mudar a trilha, a direção de arte e o texto. A produtora é aquela do sobrinho dele, então não pode ser um negócio muito difícil de entender.

[…]

09:00

Atendimento ao telefone (desesperada):

Então, ele gostou dessa décima oitava versão, vai ser ela! Vou mandar produzir que a fita tem que estar na globo meio dia!

[…]

11:48

Atendimento ao telefone (histérica):

PELAMORDEDEUS TAMO FUDIDO! O CLIENTE DIZ QUE MOSTROU A FITA PRO CELIDSON, TÉCNICO DE SEGURAÇA DA EMPRESA, E ELE ACHA QUE TEM QUE FICAR MAIS EXPLÍCITO ESSE NEGÓCIO DA VIAGEM AO EXTERIOR!!! MUDA AÍ E INSERE NO ROTEIRO RÁPIDO QUE O CARA DA GLOBO JÁ TÁ FUNGANDO NO MEU CANGOTE E SE EU NÃO GANHAR CONVITE PRA FESTA DELES ESSE ANO A CULPA É SUA!

Criação (resignado):

– Ok.

[…]

11:49

Atendimento ao telefone:

– Já mudou?

Criação (puto):

– Tô mudando. Tô pensando em um jeito de encaixar no roteiro aqui.

[…]

11:50

Atendimento ao telefone:

– Já mudou?

Criação (puto):

– Tô mudando.

[…]

11:51

Atendimento ao telefone:

– Já mudou?

Criação (puto):

– Já vai porra!

[…]

11:52

Atendimento ao telefone (ensandecido):

– Já mudou?

Criação (puto):

– TÔ MUDANDO CARALHO!

Atendimento chora.

[…]

11:55

Atendimento (por email, que é pra não desgastar):

O cliente não gostou. A mulher dele pediu pra, ao invés disso, colocar uma referência à filha deles, que tá fazendo intercâmbio. Ela mesmo já escreveu por cima e mandou pra produtora. Eles vão enviar a fita pra Globo por lá mesmo.

[…]

18:00

O comercial entra no ar no intervalo da novela.