Português informal para o turista literal

–       “Eu queria sua opinião sincera.”: Eu queria sua opinião socialmente aceitável, formulada de modo a se encaixar no meu ponto de vista e expressa de modo a não me ofender nem contrariar.

–       “Vou com certeza!”: Vou decidir na hora.

–       “Estou no caminho.”: Vou acabar de ver esse programa e tomar banho antes de ir.

–       “Chego em cinco minutos.”: Chego em quarenta e cinco minutos.

–       “Desculpa o atraso, esse trânsito né?!”: Eu já estava prevendo esse atraso, aí aproveitei pra acabar de assistir meu programa.

–       “4G”: 3G.

–       “3G”: Sem sinal.

–       “Não tem outra opção.”: A outra opção me dá mais trabalho e não é tão conveniente.

–       “Eu detesto funk e sertanejo.”: Sóbrio, eu detesto funk e sertanejo.

–       “E esse calor hein?!” : Eu acredito firmemente que dois seres humanos não podem ocupar o mesmo ambiente sem algum tipo de interação social – por mais sem sentido que seja, e você?

–       “Conheço, adoro.”: Não conheço, assim que chegar em casa vou jogar no google.

–       “Pega a primeira a direita, depois à esquerda, segue dois quarteirões e vira à esquerda de novo”: Não sei indicar, melhor você perguntar ali na frente.

–       “Aqui a conta, foram dezenove cervejas.”: Aqui a conta, foram quatorze cervejas.

–       “O Ônibus passa de quinze em quinze minutos.”: O ônibus passa aqui. Traga um livro e espere, porque os horários são aleatórios e dependem da disponibilidade de vagas.

–       “Isso é preconceito!”:  Essa é uma opinião com a qual eu não concordo.

–       “Vamos marcar!”: Vamos aguardar o próximo encontro casual randômico.

–       “Não vai ter Copa!”: Vai ter Copa, só não vai ser no Brasil que te venderam.

–       “Vai ter Copa!”: Vai ter Copa, e vão fazer de tudo (mesmo) pra ser no Brasil que te venderam.

–       “Um momento que vou estar te atendendo, senhor.”: desista, senhor.

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O pior palavrão da língua portuguesa

Sede do Dicionário Oxford, primeiro de janeiro de 2014:

*Os diálogos abaixo foram traduzidos do inglês, respeitadas a gírias e modo de falar dos estudiosos de Oxford.

– What`s up, everybody! Tudo beleza? Como foram de recesso, tranquilo? Espero que tenham aproveitado pra dar uma pesquisada nas tendências de linguagem do pessoal aí around the world, pra gente escolher nossa palavra do ano hein?!

– Hello! Pois é! Fui passar as festas na casa da minha vó no interior de Mato Grosso e percebi uma coisa: tem um fenômeno muitíssimo interessante acontecendo no Brasil. Acho que podemos tirar alguma coisa daí.

– What`s going on?

– Deixa eu contextualizar: in Brazil, a linguagem tem uma relação muito forte com os palavrões. Talvez a palavra com mais utilidades e representações no português brasileiro seja “foda”. O palavrão substitui não só outras palavras, mas até mesmo pontuações: “Porra”, por exemplo, em alguns lugares é utilizado como ponto final.

– Ok, we know that. Mas em outros lugares do mundo isso também acontece, e não é novidade.

– Mas o interessante da história não é isso: o Brasil está passando por uma crise de escassez de palavrões.

– Crise de escassez de palavrões?! Como pode acontecer uma coisa dessas?!

– Tudo começou quando uma parte da população brasileira começou a ter acesso às social networks. E começou a ter acesso também a textos muito bem escritos, que mostravam o que não passava nos jornais, sobre problemas do cotidiano. E começou a ver que aqueles problemas levantados pelos jornalistas/ humoristas/ poetas/ blogueiros compartilhados em textos nas redes sociais, aqueles sim, eles conseguiam resolver! E abraçaram com força essa ideia. Como não conseguem resolver o problema de segurança pública, por exemplo, resolveram atacar a forma como determinadas pessoas abordam esse problema. Não resolve nada, mas eles se sentem muito bem assim, então a moda se espalhou.

But what the fuck isso tem a ver com palavrões?

– Aí que tá, os palavrões foram os principais atacados. Está sendo feita uma verdadeira campanha pela abolição deles. O próprio ato de ofender ganhou uma cartilha de pode/ não pode, para que o ofendido não se sinta… well, ofendido.

– Pelas bolas de Margaret Thatcher, que confusão!

– I know! Aí algumas palavras e expressões estão sendo firmemente repreendidas pelo significado implícito que possuem. Por exemplo: “Filho da puta” é considerado muito machista, “Viado” foi considerado muito homofóbico, “Caralho” é considerado muito falocêntrico, “Coxinha”… bom, esse pouca gente entende, aí todo mundo chama todo mundo e a coisa meio que perde o sentido… mas é por aí.

– Ok, até entendo e concordo com algumas dessas ponderações, mas é uma análise muito rasa! Estão desconsiderando vários aspectos sociais, culturais, antropológicos da construção da linguagem!

– But don`t worry! brasileiros são muito criativos. Já bolaram uma expressão para substituir todos os palavrões. Sua utilização tem um caráter pejorativo fortíssimo nesses textos de internet que eu citei.

– Oh, what is it?

– Classe-média.

– Classe-média? As in, middle class? Why?

– Ao que tudo indica, além de ser utilizada pra definir a camada econômica intermediária da sociedade, a expressão é utilizada para identificar o demônio.

– Identificar o demônio? My god, esses países em desenvolvimento arrumam cada uma… what the hell is “identificar o demônio?”

– É apontar o culpado por toda e qualquer mazela que exista ou aconteça na sociedade brasileira. Vou dar três exemplos: lembra na Copa das Confederações ano passado, a confusão que foi?

– I sure do.

– Então, a culpa não foi das promessas não cumpridas, do superfaturamento ou da truculência policial. A culpa foi dos classe-média. E de alguma maneira, os classe-média foram culpados e taxados de alienados por estarem nas manifestações and foram culpados e taxados de alienados por estarem nos estádios.

– How bizarre.

– Indeed. E mais recentemente, mais dois casos. Um estado de lá, Maranhão, teve uma crise de segurança pública. Bandidos touched the terror, como eles costumam dizer. Teve até detento decapitado, um horror. Novamente, a culpa não foi da falência da autoridade policial, carcerária e jurídica, nem do coronelismo, nem da completa falta de capacidade da sociedade civil organizada maranhense se mobilizar, nem dos piores índices de desenvolvimento do país, foi dos classe-média. Dizem que os classe-média foram “cúmplices”.

– What a mess.

– Yeah. E tem mais um: um fenômeno. Jovens da periferia por todo o país começaram a marcar encontros pelas redes sociais. Esses encontros aconteciam em shopping centers geralmente frequentados pelos classe-média…

– What is a shopping center?

 – Oh, sorry. É a palavra em português para “mall”. Go figure.

 – Oh, ok.

 – Pois bem, esses jovens de periferia começaram a frequentar os shoppings não para consumir, mas para se encontrar e passar o tempo. Multidões deles… eles chamam de “rolezinho”. Causou muito estranhamento e confusão. Muita injustiça também. Mas novamente a culpa não foi da falta de opções de lazer gratuitas e de qualidade para os jovens de férias, nem da cultura de ostentação, nem da relação complicada entre público e privado e comportamento em sociedade. Foi dos classe-média. Alguns dos autores de textos para compartilhamento em social networks disseram que os classe-média estavam com inveja, porque agora os jovens da comunidade podiam ir ao shopping comprar as mesmas coisas que os classe-média, igual eles viam nos clipes do MC Daleste.

 – I love MC Daleste! But is funny, por que os carrões, jóias, barcos, helicópteros e bebidas mostradas nos clipes do MC Daleste não costumam fazer parte do cotidiano da middle class.

– Fuck it, é culpa dos classe-média.

– Indeed, é uma palavra cheia de significados.

– Pois é. E os brasileiros já estão começando a incorporar ela no cotidiano. Dependendo de que revista você lê, dos lugares que você vai, dos comediantes que te fazem rir, você automaticamente é um classe-média execrável. Na cultura também já está presente. Na próxima novela uma família da classe média vai maltratar a empregada doméstica. Vai ser a família da Fernanda Lima e do Rodrigo Hilbert. A doméstica é a Taís Araújo. O público em casa vai poder decidir como o casal morre votando na internet.

– Cool.

 – E o povão já adotou a ideia e está substituindo os palavrões old school. No interior, perto da terra da minha vó, a torcida de um time canta uma música pra torcida do rival assim:

 “Só lê a Veja e vê Globooooooo

Domada no cabresto e rédeaaaa

Essa torcida do Cruzeiro só tem bobo

Ôôô cambada de classe-média!”

– Great song. Parece música do Zé Ramalho. Essa torcida deve ser incrível.

– It is. E ainda tiraram todas as referências à sexualidade, todo mundo adorou. E até o momento ninguém achou “bobo” muito ofensivo.

– Ok, I like the word. Não é profunda nem relevante como “selfie” mas é uma ótima palavra.

– Sim, e podemos utilizar só classe-média, que ainda é menos ofensivo. A expressão que os brazillians estão usando na internet é muito mais pesada e ofensiva. Aponta o diabo e chama de piece of shit.

– Oh, what is it?

– Classe-média heterossexual branquinho.

– My god! What a terrible thing to say!


E vai começar mais um BBB…

E vai começar mais um BBB!

Muito brother de conteúdo na sua tevê

Como acontece a quatorze edições

Na internet já começaram as reclamações

Gente que discutiu futebol o ano inteiro

Quer os comentaristas de BBB no cativeiro

Gente que vai engrossar o coro de reclamões

Vai virar um spam ambulante nas eleições

 

O argumento é sempre o mesmo

Bradado na internet a esmo

A alienação que este programa vil

Causa nas mentes do Brasil

Os especialistões expõem seu crivo

Desligue a tevê e vá ler um livro!

Mas um tapa na cara desses intelectuais de raiz

É a lista de livros mais vendidos do país

 

Quando vi, senti medo

O primeiro lugar é do Edir Macedo!

Mas não acaba por aí o flagelo

O segundo lugar é do Padre Marcelo

Continuei lendo e fiquei ranzinza

Tem toda a trilogia 50 Tons de Cinza

É, a cultura está mesmo no bico do corvo

Olha o Edir Macedo na lista de novo

 

Pode parecer um pensamento alucinante

Mas ler também pode deixar ignorante

Então é sempre bom refletir e lembrar

Antes de apontar o dedo para julgar

Como raso, alienado e boçal quem curte BBB

Que você lê, gosta e compartilha texto do Duvivier