Eu tenho pensado muito sobre gays

Chamada sua atenção com esse título de duplo sentido, vamos ao que interessa:

em todo canto da internet, redes sociais e grupos de whatsapp com alguém de humanas no meio, a gente encontra o convite pra votar na seguinte enquete da sempre trabalhadora e preocupada com a opinião do povo brasileiro CÂMARA DOS DEPUTADOS:

“Conceito de núcleo familiar no Estatuto da Família

Você concorda com a definição de família como núcleo formado a partir da união entre homem e mulher, prevista no projeto que cria o Estatuto da Família? (Clique aqui para saber mais)”

Esse “clique aqui para saber mais, lá no site da Câmara, leva pra uma reportagem que conta que a Câmara está promovendo uma enquete sobre o conceito de família.

Pois bem. Sabendo dos esforços e das intenções da nossa forte bancada evangélica, qualquer brasileiro minimamente informado e afim de usar suas capacidades intelectuais é capaz de prever PRA QUÊ a Câmara dos Deputados quer saber qual o conceito de família. Porém perceba: eles querem saber se você concorda com a DEFINIÇÃO DE FAMÍLIA. Uma palavra. Antes de ser uma discussão sobre ideologia, é uma discussão sobre a língua portuguesa.

(corta pra uma lembrança da infância)

Quando eu era pequeno, eu inventava palavras. Por exemplo: sabe o barulho que a água faz quando tá descendo pelo ralo? Eu chamava esse barulho de demorrório (algo na minha psiquê de 5 anos achava pensou nessa palavra pra definir o som gargantúrico e diabólico do ralo da banheira tentando sugar meus Comandos em Ação). O dia que minha mãe me ouviu explicando minhas palavras inventadas riu tanto que eu parei com esse hábito (o bullying maternal frequentemente serve como um escudo para que você não tenha que enfrentar bullyings piores inventando palavras na frente dos colegas na escola, por exemplo. Obrigado mãe).

(corta pra mim olhando pra enquete da Câmara de novo)

Aí fiquei pensando: o argumento dos caras para cercear direitos de cidadãos brasileiros está se construindo em torno DO SIGNIFICADO DE UMA PALAVRA. Uma coisa que uma criança de 5 anos inventa e que, principalmente se você morar em Minas Gerais, pode variar mais que o apoio político do Ronaldo.

Dar moral pra essa enquete é entrar no jogo de um pessoal mestre em criar enredos pra embasar suas sandices. As chances do “não” ganhar são minúsculas (porque se tem uma força impressionante na natureza é o poder de mobilização de idiotas) e esse resultado depois vai servir só pros pastores-deputados embasarem os projetos estapafúrdios que eles tentam passar.

Por outro lado, se a bancada evangélica tá precisando se apoiar em PERCEPÇÕES DE CONCEITO para construir argumentos, é sinal de que tá ficando cada vez mais difícil sustentar os argumentos toscos que eles defendem. Ao invés de responder enquete viciada, é hora de pressionar (mais) quem pode realmente fazer a diferença. A mídia. A OAB. As marcas.

Já que é pra bater palma pra louco dançar, vamos pelo menos escolher uma música boa.

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Quem tem medo do Boticário?

O novo alvo da cruzada fundamentalista cristã que parece querer transformar o Brasil num grande grupo do whatsapp de família é uma propaganda do Boticário que mostra pessoas do mesmo sexo demonstrando afeto umas com as outras (sim. é isso mesmo e apenas isso. Porque não rola um beijinho nem nada).

O faniquito todo do pessoal do culto se dá porque, de acordo com eles, a propaganda fere “os valores bíblicos”. Longe de mim querer discordar de um livro tão atual e com interpretações tão claras, mas ficam aqui duas reflexões pra quem quer boicotar o Boticário:

1- Se uma propaganda de 30 segundos na TV é capaz de atacar seus valores, o problema não é a força da publicidade: é a força dos seus valores.

2- Se você está tendo dificuldades de explicar afeto e amor para seus filhos, talvez você não devesse ser pai. E certamente você não entendeu porque Jesus desceu aqui embaixo pra dar palestra aquela vez.

Sem mimimi.

Paz e bem.