Um conto de terror.

Era a primeira vez que Edgar entrava em casa desde a morte da esposa. A porta do apartamento antigo rangeu um pouco quando ele girou a chave na fechadura, e o cheiro denunciava o abandono do local fechado, o que só era potencializado pela chuva fina que caía lá fora e só contribuía para deixar a cidade ainda mais cinza. Eram três e quinze da manhã, conforme anunciava o horrendo relógio de parede que a mulher havia colocado ali. Seu tic tac compassado parecia absurdamente alto na madrugada silenciosa, enquanto Edgar colocava água para ferver, na esperança de tomar um chá e fumar um cigarro antes de se deitar.

Passou ao lado do quadro da Paixão de Cristo que a esposa havia colocado no corredor, e foi fitado pelo olhar de sofrimento de seu protagonista na penumbra. Havia aprendido a não temer aquele olhar. A espiritualidade – aflorada quando a mulher começou a sucumbir devido ao vírus maligno, fez Edgar agarrar-se a todas as esperanças extracorpóreas, e agora essas esperanças serviam para atenuar um pouco a saudade. Entrou no quarto e quando pressionou o interruptor a luz deu uma piscada brusca e se apagou, para não acender mais. “Ótimo”, pensou, “Minha primeira noite dormindo em minha cama sem ela será no escuro. Uma núpcia macabra, essa.” Com a ajuda da luz do telefone, deixou o livro que estava lendo, As Cartas de Chico Xavier, na escrivaninha em que estava a última foto que tiraram juntos. Passou um dedo delicado por seu rosto e sentiu um aperto no coração, já tão combalido por todos os problemas de colesterol, os quais a mulher vigiava com olhos de Lince. “Viu só”, disse em voz baixa com um sorriso triste, “e você acabou indo antes de mim.” As cortinas atrás dele se mexeram, no momento em que uma brisa mais fria trazida pela chuva passou por uma fresta na janela. Edgar ouviu o silvo da chaleira e voltou à cozinha, não sem antes ligar o computador, apenas para ter uma fonte de luz no quarto escuro.

Não pôde deixar de lembrar, enquanto despejava a água na caneca, em como a mulher sempre saía do quarto ao sentir o cheirinho de camomila. Mesmo no silêncio da madrugada, só conseguia perceber sua presença quando ela sussurrava bem pertinho de seu ouvido. Estava distraído pelas lembranças quando ouviu a voz de mulher que vinha do quarto: “As definições de vírus foram atualizadas”.

Morreu antes que sua caneca batesse no chão.

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Gentes que eu não entendo

Gente que come no Bob`s por opção

Gente que adora marcar reunião

Gente que acredita que o Lula não sabia de nada

Gente que usa o responder a todos do e-mail pra dar risada

Gente que curte o Carpinejar

Gente que pede Bloody Mary no bar

Gente que vai na Jornada Mundial da Juventude

Gente que acha que o Marcelo D2 tem atitude

Gente que acha os filmes do Nolan ruins

Gente que trabalha na Chilli Beans

Gente que se emociona com o nascimento do bebê real

Gente que acha o Super Homem um herói legal

Gente que fala “maneiro”

Gente que não torce pro Clube Atlético Mineiro

Gente que vive de regime

Gente que acha que a polícia descer porrada não é crime

Gente que comenta notícia com “Só podia ser no Brasil”

Gente que eu queria mandar pra puta que pariu