Invisible children. Invisible brains.

Você provavelmente viu o vídeo.

Antes de ver o vídeo, você provavelmente não tinha maiores informações sobre a Invisible Children, realizadora do vídeo.

Antes de ver o vídeo, você provavelmente não tinha maiores informações sobre Kony, o guerrilheiro de Uganda.

E provavelmente continua não tendo.
Mas você provavelmente compartilhou o vídeo nas redes sociais assim que aqueles 29 minutos acabaram.

Não quero discutir o mérito do tema do vídeo. Kony lidera o que é hoje considerado um grupo terrorista, fato. Tampouco quero fazer um apanhado histórico e social dos motivos que levaram a África ao cenário que ela enfrenta hoje. Zeitgeist, Zeitgeist

Quero entender porque compartilhamos esse vídeo de maneira viral, da mesma maneira como fizemos com o Cala a Boca Galvão. Porque um era uma piada, o outro não. Por que nos preocupamos em tomar partido de uma situação que, 29 minutos antes, não tínhamos o menor conhecimento de causa, e que agora conhecemos apenas um lado? Um lado que parece plausível e cheio de boas intenções, sim, mas apenas um lado, de MUITOS. Uma versão. Uma versão realizada por gente cujo trabalho encontra vários e vários poréns pela internet afora pela falta de transparência, confira no google aí.

O vídeo é bem feito. A edição convence. A narrativa seduz. Quando se quer vender alguma coisa a alguém, essa fórmula é invencível. Sedução é a essência da propaganda. Agora, propaganda pode vender chocolate e vender guerra. Seduzindo.

Resumindo tomamos partido. Concordamos: Kony tem que ser encontrado e julgado, estamos nessa com a Invisible Children (que não é polícia, não é juiz e muito menos ugandense). Tomamos partido e contribuímos pra espalhar a versão (VERSÃO, que é diferente de INFORMAÇÃO), mas foi só um curtir e um compartilhar, então que diferença faz mesmo? (Dez milhões de visualizações em um dia). Tomamos partido sobre a situação de Uganda, mas onde fica Uganda no mapa mesmo?

As redes sociais são realmente poderosas. Mudam o fluxo da informação. O desafio é fazer isso sem, inconsequentemente, nos tornarmos os manipuladores da informação que tanto criticamos, no Brasil e no mundo afora. Isso sem falar das armadilhas do brand new slackativismo (o famoso ativismo de sofá) que pode acabar criando uma nova versão de falsos moralistas que acreditam que um share no facebook contribui efetivamente pra mudar alguma coisa.

Em tempo: não sou contra, nem a favor. Tô mais por fora da situação de Uganda e dos crimes de Kony do que estou dos novos rumos do tratamento de doenças no coração. E do mesmo jeito que não compartilho informações sobre tratamento de doenças do coração porque um sujeito me mandou pelo Facebook, não vou pedir pra julgarem Kony porque não sei o que ele fez. Sei o que uma organização que não conheço FALOU que ele fez.

“Não existe o bom ou o mau; é o pensamento que os faz assim.” – Hamlet (Willian Shakespeare)

Na dúvida, duvide.

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