Um paradoxo do novo milênio

Sorte de Eric Hobsbawm já estar em um lugar melhor, porque se ele achou o século XX confuso, é porque viveu pouco o século XXI.

Eu me considero um cara precavido. Eu assisto muitos seriados americanos tipo Homeland. Eu assisto notícias. Logo, eu estou muito preocupado com todas essas notícias de espionagem e monitoramento dos nossos bróders americanos de olho no que a gente fala na internet (porque eu falo muita bobagem na internet. Bobagem inofensiva para alguns, mas a turma do mimimi se se ofende. E americanos costumam ser da turma do mimimi).

Mas aí tava pensando aqui, se algum dia a NSA monitorar minhas redes e a CIA me levar pra interrogatório, acho que consigo escapar até do teste do polígrafo, graças à maravilhosa língua portuguesa e suas fantásticas figuras de linguagem. Isso porque existe em nossa língua uma frase que é um verdadeiro paradoxo no atual cenário global. Uma frase que nao permite ao interrogador saber se você é um dos caras bons ou um dos caras maus. Uma frase que não deixa claro de que lado você está. Uma frase digna de espiões que conseguem escapar das situações mais delicadas com sua real motivação intocada.

Por isso, a próxima vez que a CIA te levar para interrogatório e perguntar: “VOCÊ POSSUI LIGAÇÕES TERRORISTAS?”, apenas responda:

“Eu quero mais é que os terroristas se explodam”.

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Eu concordo plenamente com Celso de Mello, de quem discordo totalmente.

Pobre Celso de Mello. Ao pronunciar seu voto por último em dia separado, de maneira a desempatar a discussão acerca da votação que permitiria aos condenados pelo esquema do mensalão um novo julgamento, emprestou seu nome e seu rosto como alvos da opinião pública que julgaria a decisão de todo o tribunal.

Celso de Mello desempatou. E votou a favor da aceitação dos embargos infringentes e portanto de um novo julgamento. Reviu casos, interpretou leis, consultou decisões jurídicas e chegou à conclusão de que permitir aos réus, sejam eles quem forem, todas as premissas da justiça sem ceder às pressões condenatórias da opinião pública era o certo a se fazer. Se existe a possibilidade, ela não deve ser negada. Desrespeitar isso é ir contra a justiça e ao próprio estado democrático de direito. Celso de Mello, personificando o STF, se mostrou um representante da justiça digno do cargo que ocupa e fez o que era certo, o que era justo. Não o que era fácil. Não cedeu ao “clamor das multidões”, como ele mesmo colocou.

Celso de Mello desempatou. E votou a favor da aceitação dos embargos infringentes e portanto de um novo julgamento. E perdeu a oportunidade de proporcionar o direito à justiça à multidão que clama. Não aquela prevista nas leis e interpretações dos juristas, mas a justiça moral. A justiça que tampa as brechas por onde as ratazanas escapam. Aquela justiça que os mais poéticos chamam de esperança. Celso de Mello, personificando o STF, se mostrou um representante da justiça indigno do cargo que ocupa e fez o que era incerto, o que era fácil. Não o que era justo. Não cedeu ao “clamor das multidões”, como ele mesmo colocou.

Dizem os gregos que a democracia é o poder que emana do povo. É de uma crueldade tremenda do destino que, para preservar essa democracia, nossos doutores da lei tenham que fechar os ouvidos ao clamor popular.

Fica o gosto amargo na boca, a decepção, a descrença, o cheiro de pizza no ar.

O STF fez o que tinha que fazer. Tomou o caminho racional e correto. Na indignação do momento cabe até perguntar onde estão os embargos infringentes do Amarildo, mas isso seria pouco razoável. Resta esperar o novo julgamento. A justiça aos condenados pelo mensalão veio. A justiça ao povo brasileiro ficou pro futuro.

Como tudo mais, afinal somos o país do futuro. E essa é a nossa tragédia. Afinal, o futuro é aquilo que insiste em se transformar no presente e portanto nunca chega.


Uma agência chamada Breaking Bad

Como todas as pessoas que assistiram pelo menos dois minutos e quarenta e cinco segundos dessa bela série televisiva, eu sou um fã de Breaking Bad. Imagine portanto o tamanho da minha emoção quando eu descobri que a série era, na verdade, uma grande metáfora para o cotidiano de uma agência de publicidade, sendo seus personagens os atores dessa rotina eletrizante, emocionante, desgastante e viciante. Acompanhe:

Skyler – o Marketing do Cliente: a personificação do stress, é a pessoa que está com cara de bunda 90% das vezes que você olha pra ela. Além disso, é também aquela pessoa que vai passar metade do tempo te cobrando uma solução pro problema sem mover um dedo pra te ajudar. A outra metade do tempo ela vai passar criticando a solução pro problema que você arrumou. Sem mover um dedo pra te ajudar.

Tuco – o Cliente: demanda entregas impossíveis, manda pessoas da sua própria equipe para a morte, possui um senso de humor completamente sádico e um senso estético muito duvidoso. Na verdade, é um completo psicopata. Precisa falar mais?

Walter Jr. – o Atendimento: Bom coração, no fundo o pequeno Walt só quer fazer parte de uma grande família feliz. Mas a grande verdade é que ele não sabe de nada e passa o tempo todo babando.

Gus – o Planejamento: Acha que entende do negócio. E no fundo pra ele a vida se resume a isso: o negócio. No começo até demonstrava alguma criatividade na hora de resolver seus problemas, mas depois parou de colocar a mão na massa e virou um tremendo chato que vive colocando a equipe em situações potencialmente perigosas.

Jesse – o Designer: Mimadinho, mal humoradinho, se acha o fodinha e pensa que seu trabalho é a oitava maravilha do mundo. Mas no fundo seu trabalho só sai direito porque alguém mais velho, mais centrado e com mais noção do que o mundo realmente é bota a mão pra consertar depois. Porque a grande verdade é que tudo que ele tenta fazer da cabeça dele acaba dando merda.

Hank – o Estagiário da criação: ri de tudo, acha que é o melhor no seu trabalho e que é o amigão da galera, mas a grande verdade é que não sabe de nada do que está acontecendo debaixo do seu nariz e, na hora que o bicho pega, se revela um grande cagalhão.

Os gêmeos – a Dupla de criação: Pagam de fodões, não se relacionam muito com ninguém que não sejam um ao outro e são considerados as pessoas certas pra resolver o problema. Mas no final das contas não passam de dois pau mandados que falham miseravelmente na missão de ensinar alguma coisa pro Hank (estagiário).

Saul – o Administrativo Financeiro: ele pode até rir pra você, ser simpático com você e ser a pessoa que você liga quando precisa resolver alguma burocracia que apareça no caminho, mas não se engane: ou ele vê o dinheiro entrando, ou essa simpatia toda vai embora na hora. Ah, e apesar de estar envolvido nisso até o pescoço, ele não entende direito como esse negócio funciona.

Mike – o Operações: Esse sim sabe como a coisa funciona. Esse sim sabe qual o papel de cada um nesse negócio. Esse sim pode te fuder grandão sem nem mudar o semblante. Mas ele prefere não fazer isso. Esse cara já viu o que acontece quando dá merda e ele prefere que isso não aconteça. Esse cara só quer ir pra casa. Mas vai ser o último a sair.

Walter – o Diretor de Criação: o cara vive uma vida em dois mundos: lida com todos os trâmites venenosos do negócio, tem que lidar com as loucuras da Skyler (cliente), com a alienação do Walter Jr (atendimento), com os chiliques do Jesse (Designer) e por aí vai. Mas ao mesmo tempo é o responsável por uma criação fantástica e é o bambambam do pedaço, o que faz dele a pessoa mais fodona e mais miserável do mundo ao mesmo tempo. Não é a toa que ficou doente.

Breaking Bad – a agência: É um drama. E a gente ama. E quando sai pra tomar cerveja, é disso que a gente fala.