Se tudo der certo

Se tudo der certo, um dia eu vou querer deixar uma semente nessa terra e terei um filho.

Se tudo der certo, meu filho vai ser uma daquelas pessoas que tomar gosto desde cedo pela leitura.

Se tudo der certo, um dia eu  vou fazer meu filho ler sobre Winston Churchill.

Se tudo der certo, meu filho vai ler e vai gostar.

Se tudo der certo, ele vai ser sagaz o suficiente pra me perguntar que políticos eu admirava “na minha época”.

Se tudo der certo, eu vou responder Jean Willys e Romário.

Se tudo der certo, esse menino vai ser uma pessoa muito confusa e com muito poucas certezas.

 

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Seja engajado. Faça a diferença.


Relato de um sobrevivente da ditadura gay

Belo Horizonte, 12 de Novembro de 2032.

Meu nome é José Eduardo Noronha (nome fictício) e eu sou um sobrevivente da ditadura gay.

Os fatos que passo a relatar ocorreram no já distante ano de 2012, no auge dos tempos de ferro da ditadura gay, como várias publicações da época podem comprovar. Esta não é mais uma história dessas publicações. É o relato pessoal de uma vítima da perseguição da maioria homossexual àqueles que pensavam diferente.

A ditadura gay não era de brincadeira. Nessa época, eles possuíam vários horários nos canais abertos de televisão onde pregavam contra as pessoas normais. Eles diziam que o estilo de vida hétero era algo que não estava nas palavras sagradas do CD Hard Candy, da “Deusa” Madonna. Eles estavam também nas escolas, onde tentavam convencer as criancinhas a serem gays, na hora de fazerem sua opção sexual. Graças ao bom deus misericordioso, nosso querido presidente Malafaia, na época um humilde pastor comprometido com o combate ao estilo de vida dominante, conseguiu barrar este absurdo (o presidente Malafaia foi posteriormente perseguido, como todos sabem, e conseguiu exílio na Argentina, atravessando a fronteira vestido de drag queen para escapar do apedrejamento).

Para conseguir apoio popular, a ditadura gay utilizava a moda, a propaganda e as celebridades. Um show da cantora Lady Gaga, realizado no Brasil naquele ano de 2012, teve todos os ingressos esgotados em poucas horas.

Era fim de noite de domingo. Eu voltava de um show do Mr. Catra com uma amiga. Hoje, penso que só fui perseguido por estar neste ambiente. Mr. Catra era um músico que cantava a afirmação hétero, uma coisa meio subversiva na época, tal qual Chico Buarque nos anos 60 e 70. Pois bem, saí do show de mãos dadas com essa minha amiga. Ok, vou assumir: ela era minha namorada. Creio que um travesti, que sempre nos xingava e humilhava quando descíamos a Afonso Pena, nos viu e denunciou.

Em menos de cinco minutos o New Beetle da patrulha gay parou na nossa frente, com a sirene ligada. Fomos separados. Eu fui jogado no banco traseiro do New Beetle. Nunca mais vi minha namorada.

As horas que se seguiram foram de puro terror. Fui aprisionado no porão de um outlet da Abercrombie, fora da cidade. Depilaram meu peito. Colocaram um buldogue francês para me lamber o rosto. Me enforcaram com um lenço palestino. Me fizeram ouvir Beyonce por horas a fio. Me cadastraram no Grindr. A única coisa que me davam para comer era yogoberry de damasco, uma vez por dia.

Queriam que eu entregasse meus companheiros: quem estava se casando no sagrado matrimônio, clandestinamente, nas discretas igrejas escondidas pela cidade. Queriam que  eu entregasse quem eram os agressores de carecas e playboyzinhos que agiam na calada da noite. Queriam que eu entregasse eleitores que tivessem votado nos deputados  de oposição da temida “bancada do bate cabelo”, que barrava todos os projetos da minoria, como a união entre duas pessoas de sexo diferente e o kit família nas escolas.

Resisti bravamente. Depois de muito tempo de tortura, fui libertado. Mas já não era mais o mesmo. Tinha medo de andar na rua. Tinha medo de arrotar. Tinha medo de alguém me ver comprando meu desodorante AXE. E este medo demorou a passar.

Mas a população foi às ruas, guiada por exemplos de luta pela igualdade nas artes, como Latino e Rafinha Bastos. Casais formados por homens e mulheres chocaram a sociedade se beijando em público. Homens começaram a afirmar sua heterossexualidade brigando nos estádios. A parada do orgulho hétero se tornou, ano após ano, um evento turístico, atraindo cada vez mais simpatizantes.

Graças a estas pessoas, hoje eu estou aqui, de pé, na Praça Bolsonaro (antiga Praça da Liberdade), podendo abrir os braços e dizer:

Eu sou um sobrevivente da ditadura gay.

Nota do autor: esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com personagens, lugares ou eventos da vida real são mera coincidência. O que me sobra em sarcasmo me falta em dinheiro para processos. Fiquem com Deus.