Dá o play, macaco!

Eu ouvia a frase que intitula este texto de segunda a sexta, mais ou menos às seis e meia da noite, todos os dias que chegava da escola pra ver desenho animado tomando toddynho. A frase era dita por um ator mirim do programa Disney Cruj. A sigla “Cruj” quer dizer “Comitê Revolucionário Ultra Jovem”, expressão que eu depois comecei a usar para designar jovens de coração bom criados tomando toddynho e vendo desenho que queriam mudar o mundo a partir das ações mais estapafúrdias. Enfim, um apelido (tipo o “esquerda caviar” criado pelo Rodrigo Constantino, só que sem a prepotência e o embasamento pseudo teórico), ou seja, só um apelido.

Sabe o que mais foi considerado “tipo um apelido” recentemente?

Chamar os outros de macaco. Tá na fala do idealizador da campanha #somostodosmacacos na entrevista da Veja, olha só: “E decidimos trabalhar a ideia de que a melhor maneira de acabar com o preconceito é tirar a força dele e fazer com que a pessoa não repita o ato. É como um apelido. Quanto mais bravo você fica, mais ele pega. Foi aí que criamos #somostodosmacacos.”

E sabe o que eu penso de tudo isso?

Que eu avisei, revolucionários ultra jovens. A culpa dessa presepada é muito de vocês.

Quando TUDO passa a ser considerado preconceito, violência simbólica, ou o que quer que seja, NADA passa a ser. Relativizar sem refletir dá origem a esse tipo de comportamento que só serve para emburrecer discussões sérias.

Cantada equivalendo a estupro.

Aplaudir os invasores do Instituto Royal que fizeram justiça com as próprias mãos pra um mês depois repudiar quem amarrou o menor no poste… porque fez justiça com as próprias mãos.

Nunca ter sido atingido pelo peso da palavra “macaco” e tirar foto com uma banana (uma banana!) para protestar contra o racismo.

Pessoalmente, eu detesto comportamentos inclusivos demais na mesma medida que detesto comportamentos exclusivos demais, porque ambos são ignorantes. Ambos excluem um processo de aceitação de diferença, de ponderação, de criação de raciocínio crítico. Ambos são hipócritas.

Refletir sobre as próprias contradições (e aceitar algumas delas sem apedrejar) é a melhor maneira de evoluir. Afinal #somostodosmacabros

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Peruanos Arianos

Ontem, cidadãos de um país da América Bolivariana deram uma péssima demonstração de ignorância imitando macacos toda vez que um jogador negro tocava na bola. A pior manifestação de racismo possível.

Sim, mimiminoria leitora: nem todo racismo é igual. Como nem toda homofobia e nem todo machismo. Se assumirmos que todas essas formas de violência vem sempre na mesma intensidade, assumimos também que nossa resposta deve ser sempre a mesma, e não deve. As vezes vale mais a pena educar. As vezes vale mais a pena reprimir. As vezes vale mais a pena punir. Difícil de engolir?

Quem disse que reverter ignorância é fácil?

Ontem, cidadãos de um país da América Bolivariana deram uma péssima demonstração de ignorância imitando macacos toda vez que um jogador negro tocava na bola. Hoje, várias pessoas se manifestam repudiando o ato. Dizendo que racismo é racismo. Não importa se vindo do Peru, da Nigéria ou da Noruega. Ora, importa sim e importa muito. Ver cidadãos de um país sul americano de origem indígena (e portanto sofredor de inúmeras mazelas colonialistas), que possui uma parcela significativíssima de emigrantes sofrendo xenofobia em diversas partes do mundo dando uma demonstração ridícula de ofensa e exposição de um ser humano é de um simbolismo enorme.  Enorme porque quebra uma lógica que não deveria estar mais vigente em 2014: a da desigualdade pela lógica de oprimidos e opressores. Ou vai me dizer que aquela parcela de peruanos imitando macacos são inatos opressores?

Todos somos oprimidos e todos somos opressores. Depende da máscara que trocamos durante o dia. Quando um sul americano imita um macaco, ele demonstra que não importa o passado, não importa o sofrimento, não importa a compaixão: importa o “nós” diferente do “eles” no agora.

Obrigado, peruanos, por ajudar a desconstruir essa ilusão de oprimidos e opressores. Essa lógica só serve para licença poética. Pra chamar violência de “revolta”. Pra justificar que a base da pirâmide execute pessoas em roubos cada vez mais violentos, que o meio da pirâmide amarre pessoas em postes e que o topo da pirâmide proponha “leis antiterrorismo”.

Não exclua quem compartilha vídeo da Sheherazade do Facebook. Ou quem zoa o outro torcedor com piadas homofóbicas. Não levante o muro entre o “nós e o “eles”. Debata, explique, entenda. Engula seco, levante, tome uma água. Escreva, apague, repense. Aproveite o fato de que não dá pra socar ninguém pela internet e aproxime as diferenças. Não saia de campo e vire o jogo.

Sou Galo e tô #FechadoComOTinga porque as vezes é preciso abrir mão do que se acredita cegamente pra tornar o mundo mais tolerante e tolerável.


Viva o trote do direito

Uma curtinha:

Essa semana acompanhamos na internet cenas lamentáveis, asquerosas, inconcebíveis e injustificáveis ocorridas durante um dos eventos que marcam o início da vida dos jovens no curso superior. Situações que, por mais que sejam discutidas ou justificadas, simplesmente não deveriam ter ocorrido. Situações que mostram que a educação recebida pelos jovens em nosso país está a beira da falência, tanto técnica quanto moral, ética e até cultural.

Estou falando, obviamente, dos erros apontados nas redações do ENEM. Erros técnicos – como redações com nota máxima que apresentam erros como “trousse”, e erros morais, como a simpática receita de miojo colocada na prova por um aluno. Uma situação surreal em vários níveis diferentes. O primeiro, claro: a falta de noção do aluno, de tomar a decisão de fazer uma coisa dessas em uma prova como o ENEM, que, por mais ridícula que seja, pode definir seu futuro acadêmico. A segunda, do MEC, de querer justificar que um absurdo desse tem alguma interpretação que não seja a de uma cagada gigantesca. Até o fato de a receita ser de miojo é preocupante: o jovem é tão intelectualmente preguiçoso que transcreveu a segunda receita mais fácil da culinária, só atrás do gelo. É absolutamente vergonhoso ver que um tipo desses corra um sério risco de entrar numa universidade e ter um diploma de curso superior.

Ah sim, e teve a história dos sujeitos do direito da UFMG, faculdade da qual sou ex-aluno, inclusive. Eu poderia seguir a linha do MEC e argumentar que eles são um produto desse meio doentio descrito aí em cima, mas isso seria imbecil da minha parte. Vou dizer apenas que adorei a atitude deles, e adorei o fato de ele ter sido fartamente documentada e divulgada. Achei ótimo ela ser tão sintomática.

Porque nada melhor que sintomas como náuseas e uma bela dor de cabeça pra te mostrar que tem alguma coisa errada. E que a educação que estamos recebendo no Brasil precisa ser hospitalizada com urgência.