A Revolta da Caxirola

“O Brasil não tem povo, tem público”.

Lima Barreto

Acho que todo brasileiro viu essa frase pela primeira vez em algum livro de história do colégio. Crítica explícita, a frase do escritor mostra que nosso país tem uma tendência quase genética em assistir passivamente o desenrolar dos fatos diante de seus olhos. Como se assistisse um grande jogo de futebol.

Pois bem. Talvez a gente não seja mesmo a melhor definição de “povo”. Mas até o jeito que somos “público” querem decidir por nós.

Eu espero que, nos livros de história do futuro, a frase de Lima Barreto continue lá, denunciando a relação do brasileiro com o estado republicano. Mas que, alguns capítulos à frente, o livro retrate também um episódio curioso, uma insurgência inusitada, um momento em que o povo brasileiro bateu o pé e disse “não”: a Revolta da Caxirola.

Ocorrida nos idos de 2013, a Revolta da Caxirola aconteceu porque, numa releitura dos despachos da época das Bandeiras e dominação portuguesa, forças políticas locais submissas aos interesses de forças políticas de além-mar quiseram impor ao povo-público brasileiro algo descabido. Um instrumento musical inventado à revelia e vendido (literalmente) para inglês ver (literalmente) como um patrimônio e uma tradição brasileira. Um chocalho de plástico, batizado, como tudo mais na Copa do Mundo que se aproximava, com um nome tosco, que disseram ao povo-público que era português mas que em nada se parecia com o português que o povo-público usava em sua vida.

E entregaram o maldito chocalho ao povo-público e disseram ao povo-público para fazer barulho com aquilo nos estádios. A ideia dos governos de além-mar era vender a Caxirola na época da Copa, por 30 reais, ao otário doméstico ou visitante que, como um índio que troca ouro por espelhinhos, caísse nessa.

Entretanto, o povo-público já estava combalido por outras coisas. Já havia sido ludibriado por promessas superfaturadas a respeito da própria Copa. Já estava farto de várias outras coisas que não o representavam virando símbolo a sua frente. E aí uma insurgência aconteceu. A Caxirola que deveria fazer barulho seria silenciada. Começou na Bahia, onde uma chuva de Caxirolas caiu sobre o gramado da Arena Itaipava (antiga Fonte Nova).

Com fé, a Revolta da Caxirola vai se espalhar pelo Brasil. Seu nome já demonstra seu potencial de entrar para os livros de história como o episódio em que o povo brasileiro, tão carente de símbolos, encontrou um que denunciava com perfeição o quanto tentavam fazer esse povo-público de otário.

Que os portadores de Caxirola, a partir de agora e até a Copa, sejam julgados e condenados pela sociedade brasileira e que o barulho desse chocalho maldito nunca seja capaz de suprimir o verdadeiro barulho de nosso povo-público nos estádios, nosso grito genuíno contra todos aqueles que acham que podem pensar pela gente:

“Ei, Galvão, vai tomar no cu!”

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